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Por Manuel Augusto Dias
SANTIAGO DA GUARDA (2)
Uma calçada romana abandonada por onde peregrinavam os romeiros de Santiago de Compostela
Ficando Ansião, como já é sobejamente conhecido da maioria dos nossos leitores, junto da antiga via romana que ligava Lisboa a Braga, por Conímbriga, ou de uma das suas variantes mais importantes, não surpreende ninguém, que uma via mais secundária, senão mesmo a principal, passasse por Santiago da Guarda.
Como se sabe também, a antiga povoação chamada Ansião, tinha o seu centro mais para Poente do que acontece hoje, aliás o topónimo Igreja Velha confirma-o plenamente. Pois era desse antigo centro que saía a estrada mais directa para Santiago, via Ponte Galiz, hoje desactivada em virtude do traçado do IC8.
Ora, no final da década de 1970, quando era Presidente da Câmara de Ansião o Dr. Higino Rodrigues Valente, resolveu-se, e bem, melhorar a estrada de Ansião a Santiago, via Vale de Boi, alargando aquela primitiva estrada e alcatroando-a, para facilitar o trânsito automóvel em toda a sua extensão.
Nesse tempo, era eu estudante universitário em Coimbra, bem como o meu amigo Ilídio Baptista, morador junto dessa mesma estrada, já muito próximo de Santiago. Habituado a percorrê-la a pé algumas vezes até Ansião, e recordando as características das calçadas romanas que havia aprendido nas aulas de História, chamou a minha atenção e a do amigo comum José Eduardo, que já então evidenciava um interesse muito especial pela História e por todos os vestígios de interesse histórico, para um pedaço de calçada, nessa antiga estrada, muito bem conservado, um pouco antes de chegar ao Vale de Boi, para quem vai de Ansião em direcção a Santiago. O Prof. Doutor Jorge Alarcão que havia sido meu professor, e é uma autoridade nacional nesta matéria, foi, por nós, convidado a vir a Ansião, para in loco dar a sua opinião sobre esse pedaço de calçada. E a verdade é que ele confirmou a suposição de Ilídio Baptista - pode ser, de facto, um antigo pedaço de uma via romana! Como a estrada em construção previa a sua destruição (devido às obras de alargamento, nivelamento, e posterior alcatroamento) imediatamente iniciámos diligências no sentido de preservar aquela pequena extensão de calçada romana, obrigando a um ligeiro desvio da "nova" estrada, o que acabou por suceder, com o óbvio transtorno que isso trouxe à Câmara de então.
É pena que, hoje, essa via romana não esteja devidamente limpa e protegida, para que ao menos as crianças que frequentam as escolas do concelho, a pudessem visitar e compreender melhor como eram as antigas vias romanas, e como elas serviram na perfeição a romanização do antigo espaço imperial. Não me parece que tal cuidado possa pôr a perder os cofres do município ou da própria freguesia de Santiago, mas, ao contrário, pode contribuir, e muito, para a valorização de futuros itinerários turísticos, com passagem por Santiago (já valorizado com a classificação da Residência dos Condes de Castelo Melhor).
Era por essa antiga estrada romana, que ainda hoje conserva uma aldeia chamada precisamente Estrada, que circulavam muitos dos peregrinos que do Sul rumavam para Santiago de Compostela. Esta revelação é feita por Carlos Gil e João Rodrigues, no seu livro Pelos Caminhos de Santiago / Itinerários Portugueses para Compostela (Publicações Dom Quixote / Círculo de Leitores, 1990). Durante a Idade Média, havia dois caminhos alternativos entre Santarém e Coimbra (cf. p. 61): um mais litoral, outro mais interior. O primeiro, era mais extenso e por isso, certamente, o menos escolhido por quem ia a pé, seguia por Porto de Mós, Batalha, Albergaria dos Doze, Pombal, Redinha, Soure, Montemor-o-Velho, Tentúgal, S. João do Campo e Coimbra. O segundo, seguia pela Golegã, Asseisseira, Pereiro, Alvaiázere, Maçãs de Caminho, Almoster, Ansião, Santiago da Guarda, Rabaçal, Conímbriga, Condeixa-a-Nova, Cernache e Coimbra. Baseados no caminho percorrido por Confalonieri, em 1594 (relatado por J. B. Confalonieri e J. M. López-Chaves Meléndez, El Camino Portugues, Vigo, 1988), os autores de Pelos Caminhos de Santiago divulgam os principais itinerários dos peregrinos portugueses e italianos (estes últimos vinham de barco até Lisboa e daí peregrinavam por terras portuguesas até à Galiza).
Refazendo o itinerário de Confalonieri, Carlos Gil e João Rodrigues, no seu livro Pelos Caminhos de Santiago (op. cit., pp.74-76), afirmam ter passado exactamente na estrada de Ansião a Santiago acima referida, e descobrem a antiga calçada romana. Fiquemos, para concluir o apontamento de hoje, com um excerto dessa passagem:
«Continuamos caminho por PEREIRO, depois ALVAIÁZERE, MAÇÃS DE CAMINHO, ALMOSTER E ANSIÃO. Aqui, atravessamos uma pequena ponte medieval de onde parte uma rua com o nome de Rainha Santa. Voltamos à estrada e perto de Vila do Boi (queriam dizer, obviamente, Vale de Boi) encontramos os vestígios de uma calçada romana.
Vamos parar novamente em SANTIAGO DA GUARDA. É dia de festa em honra do padroeiro da povoação, Santiago Maior. Ela tem lugar todos os anos no domingo mais próximo de 25 de Julho. Por ser um dos primeiros dias de Agosto, a praça da aldeia enche-se completamente com bons carros de matrícula estrangeira, não por serem turistas os visitantes, mas emigrantes.
É um pretexto para se reverem amigos e familiares, se fazerem compras na pequena feira ao longo da estrada e se reunirem em comezaina logo que acabe a missa cantada e a procissão com a imagem e pendões de Santiago tiver terminado.
A Igreja de Santiago, embora moderna, possui duas imagens do Apóstolo Santiago, uma delas muito antiga (talvez do século XIV, em pedra).
Almoçamos ao ar livre junto a uma torre em ruínas que faz parte de um velho solar do condes de Castelo Melhor. Os poucos moradores do lugar chamam-lhe, com ar pomposo, "Castelo de Santiago". Trata-se de uma residência senhorial do século XVI. Para nós, era apenas um interessante edifício arruinado e muito antigo, aproveitado pelos actuais inquilinos, ao mesmo tempo, como restaurante, tasca, mercearia e salão de barbeiro...».